Planejando a seção de Discussão

O papel da Discussão é fornecer uma interpretação consolidada e abrangente dos resultados.

É na Discussão que você dá forma ao conhecimento gerado em seu trabalho, estudo ou pesquisa e:

  • estabelece conexões e relações mais detalhadas entre os resultados, 
  • quantifica e qualifica estas relações de modo fundamentado,
  • identifica a validade (ou não) de suas hipóteses,
  • demonstra novas descobertas realizadas,
  • estabelece como suas descobertas contribuem para a área de conhecimento ou para a comunidade, indicando a relevância de seu estudo
  • comenta eventuais limitações de seu estudo
  • indica próximos passos no desenvolvimento do tema

Uma ótima abordagem para a Discussão é partir da interpretação de seus dados. Em seguida, convém ampliar para uma discussão mais abrangente destes resultados no contexto de sua área, indicando a relevância de seu trabalho.

Este caminho é o inverso do caminho feito pela Introdução (clicando aqui você pode ver o artigo sobre Introdução) e está representado na figura 1.

Figura 1 – Abordagem da discussão

Esta abertura da discussão do seu estudo para os impactos que ele apresenta no contexto visa situar, interpretar e esclarecer como os resultados de seu trabalho contribuem para a sua área de atuação.

Deste modo, a seção de Discussão vai retomar – e deve cumprir – o que a Introdução prometeu que seu estudo faria.

Neste artigo, vamos planejar como fazer a seção de Discussão.

Tomemos o mesmo exemplo do artigo anterior daqui do Ciência Escrita, sobre a seção de Resultados: uma pesquisa sobre o consumo de frutas, verduras e legumes por adultos na Cidade XYZ. (Você pode acessar este artigo da seção de Resultados aqui). Neste estudo, a referência de consumo saudável equivale ao consumo de frutas e hortaliças em cinco ou mais dias por semana.

A pesquisa considerou quantas pessoas adultas consomem frutas e hortaliças nesta frequência. Além disto, a pesquisa coletou diversas outras informações sobre a pessoa como sexo, idade, bairro de residência, condição sócio-econômica, realização de atividade física, nível de escolaridade, tipo de trabalho exercido durante o dia.

Os dados iniciais relativos a região e gênero são apresentados na Tabela 1 e na Figura 2.

Tabela 1 – Percentual de adultos (18 anos) que consomem frutas, verduras e legumes em cinco ou mais dias da semana, por sexo e por região da Cidade XYZ em 2020 

    IC 95% = Intervalo de confiança de 95% Fonte: Exemplo fictício adaptado a partir de Vigitel Brasil 2019

Figura 2 – Percentual de adultos (18 anos) que consomem frutas, verduras e legumes em cinco ou mais dias da semana, por sexo e por região da Cidade XYZ em 2020

A preparação da Discussão, de fato, começa já na descrição dos resultados. Depois, como um item específico, a seção de Discussão segue descrevendo a análise dos resultados, a validação (ou não) de hipóteses e, se for o caso, nova avaliação dos dados na busca por entender as razões dos resultados obtidos. A discussão pode também antecipar ou projetar ações futuras.

Uma boa estratégia para a Discussão é buscar responder perguntas relevantes sobre a razão dos resultados e das relações entre eles.

Para este caso, algumas perguntas específicas a serem respondidas para este estudo seriam:

  • Por que mulheres tem alimentação mais saudável que homens, consistentemente?
    • Esta diferença se justifica por alguma outra relação que seja encontrada para as mulheres em todas as regiões? Escolaridade, por exemplo, está ligada a uma melhor alimentação? Renda? Tipo de trabalho?
  • O que faz com que algumas regiões tenham resultado melhor que outras?
    • Novamente, há alguma relação com outras variáveis em cada região que justifique a diferença? Regiões mais ricas tem uma alimentação mais saudável? Se não, o que justifica isto?
  • Que outras variáveis podem ser relacionadas à alimentação saudável? Idade tem alguma influência? Tipo de trabalho?
  • Se não há alguma relação direta entre duas variáveis simples, a combinação delas possibilita alguma afirmativa sobre as razões deste conjunto de dados? Por exemplo, o conjunto de escolaridade e renda ou o conjunto de atividade física e idade poderia justificar os resultados? A análise estatística é muito útil nestes casos.
  • É necessário coletar mais informações para este estudo? Ou este estudo já possibilita boas conclusões e basta indicar possibilidades de estudos futuros?
  • E o que pode ser feito para melhorar este cenário? Com base neste estudo, que ações podem ser tomadas para incentivar o consumo de alimentos saudáveis? Qual o impacto disto?

Perceba que as respostas a estas questões podem ter dois destinos. Um deles é fornecer a base para escrever a Discussão, que é o que planejamos. O outro é indicar a necessidade de acrescentar informações e análises na seção de Resultados para justificar os dados ou explicá-los melhor. De posse destas novas análises, a Discussão pode prosseguir respondendo às questões.

A Discussão é a parte mais agradável e interessante de escrever, é realmente o ponto máximo do estudo. No entanto, é também a parte que requer mais atenção, cuidado com o sentido das palavras e abrangência das afirmativas, coerência do texto com os dados e consistência entre as observações.  

Por isto, escreva suas observações e comece seu rascunho de Discussão tão logo tenha organizado e analisado seus dados. Considere as questões citadas aqui. Questione seus próprios resultados. Queira saber o porquê de seus dados e suas observações. Escreva sobre tudo e revise muito. Revise, reconsidere, analise, colete dados, refaça.

Alcançando um bom texto e respondendo bem às questões principais, isto permitirá explorar ao máximo o seu trabalho ou estudo.

E valerá muito a pena.

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Referências:

Vigitel Brasil 2019 : vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico : estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2019 [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças não Transmissíveis. – Brasília: Ministério da Saúde, 2020.

Fotos: Lukas, Pixabay e Alex Green, do site Pexels – http://www.pexels.com

Publiquei este artigo originalmente no LinkedIn em: https://www.linkedin.com/pulse/artigo-t%C3%A9cnico-e-cient%C3%ADfico-planejando-se%C3%A7%C3%A3o-de-alves-dos-santos/?published=t


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