Como Escrever o Resumo de um Artigo Científico

Você quer ver um filme. Tem milhares de opções. Você decide ver uma ficção científica. Olha alguns títulos, mas ainda há vários filmes possíveis. Então, você finalmente lê a sinopse de uns dois ou três pra decidir qual deles irá lhe trazer a melhor diversão, que é o que você quer.

Algo parecido acontece quando você está procurando um conhecimento técnico ou científico específico. Se você for buscar em artigos científicos, você terá inúmeros bons títulos. Mas são os bons resumos que irão lhe indicar o que ler para obter o conhecimento de que você precisa.

Assim, a pergunta de quem lê o resumo é: Vale a pena ler este artigo inteiro?

Do ponto de vista de quem escreve um artigo científico ou relatório técnico, o resumo é uma sinopse e uma vitrine do trabalho. Precisa ser curto, conter a essência do estudo e ser fiel ao conteúdo do artigo completo.

E, enquanto na sinopse de um filme existe uma preocupação em não estragar a surpresa da estória, no artigo científico, ao contrário, o resumo precisa comunicar o conteúdo do estudo de modo muito objetivo.

E, em ambos os casos, convém despertar o interesse do leitor.

Como fazer um bom resumo?

Um bom resumo apresenta de modo bem breve:

  • O contexto.
  • Qual é a principal questão que está sendo avaliada, problema que está sendo resolvido ou conhecimento que está sendo gerado. Este é o coração do resumo, é esta frase que vai indicar o valor do seu trabalho.
  • Que experimentos, análises ou avaliações foram feitos.
  • Os principais resultados.
  • Implicações dos resultados.
  • E, dependendo do periódico, Conclusões.  (Em boa parte dos periódicos, incluir as conclusões no resumo é opcional.  Um resumo sem conclusões costuma incentivar a leitura do artigo todo)

Um exemplo real

Em 2016, os pesquisadores Konstantin Batýgin e Michael Brown do Instituto Caltech, da Califórnia, publicaram um artigo científico apontando evidências de um novo planeta no sistema solar.

Aliás, este é o título do artigo: Evidência de um planeta gigante distante no sistema solar.       ( Batygin, et al., 2016)

E o resumo do artigo foi muito bem estruturado.

Antes de analisarmos o resumo, no entanto, é bom apenas esclarecer alguns termos bem rapidamente.

A partir dos anos 1990, uma série de corpos celestes foram encontrados em uma extensa região além de Netuno. Esta vasta região foi chamada de Cinturão de Kuiper, onde orbita Plutão, além destes outros diversos objetos celestes de tipos diferentes e de tamanhos pequenos.

Fonte: solarsystem.nasa.gov

No conjunto, como uma grande classificação, todos estes objetos passaram a ser denominados de objetos transnetunianos (TNOs – Transneptunian Objects). Devido a essas descobertas e a uma revisão dos conceitos astronômicos, Plutão, o maior objeto transnetuniano, foi “rebaixado” à categoria de planeta-anão em 2006. Plutão perdeu o “posto” de planeta.

Assim, o sistema solar passou a ter 8 planetas, alguns planetas-anões e o cinturão de Kuiper repleto de TNOs.

Até que em 2016, o estudo das órbitas de diversos destes objetos transnetunianos levou os pesquisadores Batygin e Brown a propor a possível existência de um novo planeta gigante e muito, muito distante. Tão distante que ainda não foi observado.

Este possível novo membro do sistema solar está sendo chamado de Planeta 9.

Antes de seguir para o exemplo, dê só uma olhada na figura seguinte, ela ajudará no entendimento. O centro da região brilhante é o sol. E na escala desta imagem, a órbita de Netuno está bem perto do sol, dentro da região mais iluminada. Em lilás e roxo, estão as órbitas dos TNOs estudados, com inclinações semelhantes. Repare que estas órbitas também são semelhantes na sua posição mais próxima do sol.

Fonte: Pesquisa Fapesp, 2019

Agora, sim, o exemplo

O exemplo de resumo seguinte é uma tradução adaptada do artigo científico de Batygin e Brown (2016). O texto foi simplificado em algumas definições (em azul), mas é fiel ao conteúdo. O resumo original em inglês, com os termos técnicos apropriados será mostrado no final deste artigo.

 Repare que o resumo a seguir apresenta os aspectos citados acima, de contexto, definição do problema, avaliações feitas, resultados, implicação dos resultados.

Vamos analisar este resumo depois, frase por frase.

Análises recentes mostraram que as órbitas de vários TNOs exibem um alinhamento inesperado de suas inclinações em relação ao plano de rotação do sistema solar.

Embora várias hipóteses tenham sido apresentadas para explicar esse alinhamento, até o momento, permanece indefinido um modelo teórico que possa explicar com sucesso as observações.

Neste trabalho, mostramos que as órbitas destes TNOs são consistentes não apenas na inclinação, mas também no espaço físico, na posição mais próxima do sol. Demonstramos que este conjunto de fenômenos tem uma probabilidade de apenas 0,007% de ser devido ao acaso, exigindo, portanto, uma origem dinâmica.

Descobrimos que o alinhamento orbital observado pode ser mantido por um planeta excêntrico distante, com massa maior que ~ 10 massas terrestres, cuja órbita está aproximadamente no mesmo plano dos TNOs (...)

Além de explicar o alinhamento orbital, a existência deste planeta explica naturalmente diversos outros fenômenos cuja origem era anteriormente pouco clara. A análise contínua de objetos externos distantes e altamente inclinados do sistema solar fornece a oportunidade de testar nossa hipótese, bem como restringir ainda mais os elementos orbitais e a massa do planeta distante.

(© AAS. Reproduzido, traduzido e adaptado com permissão para esta publicação)

Analisando frase por frase.

Uma boa forma de descobrir como escrever um texto é dissecar um que seja bom. Então, vejamos:

  1. Análises recentes mostraram que as órbitas de vários TNOs exibem um alinhamento inesperado de suas inclinações em relação ao plano de rotação do sistema solar.

O resumo começa com a afirmativa simples de que há algo fora do esperado nas descobertas recentes sobre TNOs: o alinhamento similar da órbita de diversos objetos. É um bom começo por que aborda dois pontos de modo muito objetivo.

  • Primeiro, posiciona o trabalho em relação às descobertas recentes dos TNOs, ou seja, fornece o contexto.
  • Segundo, já sugere o que vem pela frente:  se é inesperado, então, este alinhamento precisa de razão específica.

  1. Embora várias hipóteses tenham sido apresentadas para explicar esse alinhamento, até o momento, permanece indefinido um modelo teórico que possa explicar com sucesso as observações.

A segunda frase encaixa-se perfeitamente com a primeira. Ao afirmar a falta da teoria, o resumo já aponta sobre o que será o trabalho, já introduz o problema que será tratado no artigo. Por que as órbitas destes objetos têm este alinhamento similar?

  1. Neste trabalho, mostramos que as órbitas destes TNOs são consistentes não apenas na inclinação, mas também no espaço físico, na posição mais próxima do sol. Demonstramos que este conjunto de fenômenos tem uma probabilidade de apenas 0,007% de ser devido ao acaso, exigindo, portanto, uma origem dinâmica.

Nesta terceira parte, o texto começa a indicar o que foi feito no estudo. Dois aspectos foram ressaltados aqui.

  • Primeiro, o trabalho vai acrescentar um novo conhecimento, de que as órbitas destes TNOs são semelhantes também na posição mais próxima do sol.
  • E segundo, o estudo vai demonstrar que este conjunto de condições não pode ocorrer por acaso, tem de ter uma causa e esta causa é de origem dinâmica. Esse texto dá relevância ao fato observado ao mesmo tempo em que indica a avaliação que foi feita no estudo.

E aí, o resumo atinge o auge ao apresentar o resultado do estudo:

  1. Descobrimos que o alinhamento orbital observado pode ser mantido por um planeta excêntrico distante, com massa maior que ~ 10 massas terrestres, cuja órbita está aproximadamente no mesmo plano dos TNOs (…)

Esta proposição de um novo planeta é algo de muita relevância e requer evidências fortes. A comunidade de astrônomos – como qualquer comunidade científica muito especializada – é altamente exigente e só aceita uma proposta destas se ela for muito bem fundamentada. 

Fonte: Pesquisa Fapesp 2019

E, por isto mesmo, o resumo termina reforçando ainda mais o embasamento desta proposta, ao indicar que a existência deste planeta pode explicar outros fenômenos.

Ao fazer isto, automaticamente, a parte final também reforça a relevância do estudo.

  1. Além de explicar o alinhamento orbital, a existência deste planeta explica naturalmente diversos outros fenômenos cuja origem era anteriormente pouco clara. A análise contínua de objetos externos distantes e altamente inclinados do sistema solar fornece a oportunidade de testar nossa hipótese, bem como restringir ainda mais os elementos orbitais e a massa do planeta distante.

Em seu trabalho, procure apresentar estes aspectos principais em seu resumo: contexto, definição do problema, avaliações feitas, resultados, implicação dos resultados e, se for o caso, conclusões.

Para isto, resuma progressivamente seu artigo até chegar a um texto conciso, claro interessante e bem estruturado, para indicar o valor de seu estudo.

Algumas outras dicas.

Título e resumo são os dois primeiros itens, mas como eles devem ser coerentes com o artigo completo, convém iniciar com uma versão preliminar e revisá-los por último, depois do artigo já pronto.

Esta primeira versão servirá como um guia geral, para manter um foco aproximado e dar um direcionamento ao texto. Depois de terminar o artigo, revise-os com cuidado, atentando bem para os termos utilizados e faça as alterações necessárias para garantir a consistência e coerência deles com o artigo completo.

É essencial também consultar as regras do periódico em que você pretende publicar.  Cada revista/periódico tem regras específicas para o resumo, indicando o tipo, formato e número máximo de palavras, além de uma ou outra regra particular do periódico. Por isto, consulte as exigências do periódico onde você pretende publicar antes de começar a escrever seu artigo.

E o Planeta?

Bem, até 29 de outubro de 2020 quando este artigo foi escrito, o Planeta 9 ainda estava por ser observado.

A comunidade de astrônomos ainda não chegou a um consenso e está dividida entre a possibilidade do Planeta 9 e outras teorias.

 No entanto, há um grande esforço de busca e uma grande expectativa de que ele possa ser observado nos próximos cinco anos.

Dá tempo para escrever alguns artigos científicos até lá. E quem sabe até algum que tenha um alcance global (planetário!)…

E com um excelente resumo!

© 2020 – Todos os direitos reservados

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E se quiser saber mais sobre o Planeta 9, as referências estão no final, incluindo o artigo original de Batygin e Brown.

Agradecimento

Agradeço muito ao Dr. Konstantin Batygin e ao departamento legal da IOP Science por permitirem a utilização de seu resumo como exemplo, bem como pela atenção e gentileza.

Resumo Original

Segue o resumo original, com os termos técnicos efetivamente utilizados.

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Recent analyses have shown that distant orbits within the scattered disk population of the Kuiper belt exhibit an unexpected clustering in their respective arguments of perihelion.

While several hypotheses have been put forward to explain this alignment, to date, a theoretical model that can successfully account for the observations remains elusive.

In this work we show that the orbits of distant Kuiper belt objects cluster not only in argument of perihelion, but also in physical space. We demonstrate that the perihelion positions and orbital planes of the objects are tightly confined and that such a clustering has only a probability of 0.007% to be due to chance, thus requiring a dynamical origin. We find that the observed orbital alignment can be maintained by a distant eccentric planet with mass greater than ~10 Earth masses, whose orbit lies in approximately the same plane as those of the distant Kuiper belt objects, but whose perihelion is 180 degrees away from the perihelia of the minor bodies.

In addition to accounting for the observed orbital alignment, the existence of such a planet naturally explains the presence of high perihelion Sedna-like objects, as well as the known collection of high semimajor axis objects with inclinations between 60 and 150 degrees whose origin was previously unclear. Continued analysis of both distant and highly inclined outer solar system objects provides the opportunity for testing our hypothesis as well as further constraining the orbital elements and mass of the distant planet.  

“© AAS. Reproduced with permission”

Referências:

Batygin, K. e Brown, M.E. 2016. Evidence for a Distant Giant Planet in the Solar System. The Astronomical Journal. 2016, Vol. 151. https://doi.org/10.3847/0004-6256/151/2/22

2020. Planet 9. Wikipedia. [Online] August de 2020. [Citado em: 28 de October de 2020.] https://en.wikipedia.org/wiki/Planet_Nine#:~:text=As%20of%20August%202020%2C%20no,in%20the%20outer%20Solar%20System..

2019. Um Novo Planeta no Sistema Solar? [Vídeo no YouTube] s.l. : Pesquisa Fapesp, 2019. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=rDZ03Metj5o&t=9s  2019 Acessado em 26/10/2020


2 comentários sobre “Como Escrever o Resumo de um Artigo Científico

    1. Obrigada, Prof. Arthur! Fico contente que tenha gostado. A ideia é publicar algo toda semana. Abraço e bom final de semana!

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