A Mensagem e o Tom

 – Que música você vai cantar?

 – Se todos fossem iguais a você – ela respondeu

 – Muito bem. E de quem é esta canção? – perguntou Ary Barroso (ele mesmo, o músico e compositor que, na época, comandava um programa de calouros).

 – Do Vinícius de Morais – ela respondeu.

 – E o Tom?

 – Lá Maior!

Risada geral.

Jobim conta este caso no documentário Elis e Tom, vale a pena ver o filme.

Mas voltando ao caso, este é um exemplo perfeito do quanto focamos no sentido que temos em mente para uma certa palavra num certo momento. Para quem estava no auditório naquele dia e sabia quem havia composto “Se todos fossem…”, “Tom” era Antônio Carlos Jobim. Para a cantora, era o tom da música em que ela iria cantar.

Para você, após ler o título e antes de começar o texto, muito provavelmente,  “Tom” era o tom da mensagem. Talvez você tenha pensado no estilo gramatical – formal ou informal –  da mensagem escrita, talvez no tom de voz da mensagem falada, ou ainda num tom emocional – de ironia, de romance, humorístico… talvez estivesse esperando um texto falando da importância de manter um tom coeso.

Tudo, menos o Jobim.

Pois é, isto apenas para dizer que sempre que possível, vale a pena deixar um texto “dormir”, e esperar um ou dois dias sem editá-lo nem o ler, antes de fazer a revisão final. Algumas palavras, expressões, algumas maneiras de escrever podem ter sentidos múltiplos, mas quando estamos muito focados em um contexto, dificilmente percebemos esta diversidade de sentidos. Após um tempo de distanciamento, temos condição de ler o texto da perspectiva dos leitores e assim podemos ajustá-lo para que a comunicação tenha o efeito desejado .

Eu, por exemplo, mudaria o título para A Mensagem e o Tom, eu tiraria o Jobim do título, só para reforçar esta sensação de múltiplos sentidos no texto…


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