Por que a escrita científica não é mais simples?

Será que a linguagem científica poderia mesmo ser mais simples?  Esta pergunta traz uma premissa embutida: a de que a linguagem científica seria desnecessariamente complicada. E aí é que está a grande questão. Será que a linguagem científica é mesmo um bicho de sete cabeças ou apenas precisa ser diferente da linguagem coloquial?

Vamos ver!

Digamos que você vai comprar um carro. Você vai a uma concessionária, fala com o vendedor e se você disser que quer seu carro na cor prata, ele vai te mostrar um carro naquela cor. Pronto. Comunicação simples e efetiva. Você compra o carro e sai feliz dirigindo.

Esta é a comunicação coloquial, a do dia-a-dia, que é simples, direta, em que não é preciso explicar demais. Neste caso, não há muitas possibilidades de entender errado o conceito de cor prata, normalmente cada marca possui somente uma tonalidade de cada cor.

Agora, imagine que você comprou seu carro, viveu feliz com ele por alguns anos, até que um belo dia um caminhão fez uma curva proibida e arranhou muito o seu carro.

Você vai mandar consertar e será necessário refazer a pintura. Qual a sua maior preocupação?

“Será que vai ficar manchado?”

Você sabe que não basta que a oficina use qualquer tinta “prata”.

De fato, além das várias tonalidades de prata, existem vários tipos de tinta, formas de aplicar, necessidade de verniz ou de um tipo especial de preparação para certos tipos de tinta.

O profissional que for pintar seu carro precisará escolher a cor certa. Se você tem um Gol de 2019, a cor será um Prata Tungstênio, por exemplo.

Repare que a informação aqui precisou ser mais exata e para isto, precisou ser mais extensa e ter mais elementos. Agora não é qualquer prata. É aquele tom de prata específico, o Prata Tungstênio. E para achar este prata específico, foi necessário saber o modelo e o ano do carro, porque as informações da cor estão ligadas ao modelo e ao ano do carro. Informações específicas requerem mais dados.

Pois é, mas tem mais. O pintor precisou verificar que esta tinta era de base de poliéster. Sabendo disto, o pintor já sabe os cuidados com os quais a pintura deve ser feita e sabe que tem de usar duas mãos de verniz sobre a tinta.

Veja que saímos de uma simples palavra: “Prata” para a necessidade de informações bem mais completas: Prata Tungstênio, base poliéster, para um Gol 2019. Cada palavra tem uma função. Não é chatice, não é implicância, não é mimimi, não é excesso. É o que é necessário para a pintura.

Claro que você, como dona ou dono do automóvel, não precisa saber disto, mas o pintor precisa. Assim, a linguagem que o pintor irá usar com você será a linguagem coloquial: pode ficar tranquila(o) que seu carro vai ficar novo em folha!!! Mas a linguagem que ele vai usar para pegar a tinta, será uma linguagem técnica porque este é o objetivo dele: resolver um problema técnico que é ter a mesma cor no carro inteiro após a pintura.

Agora digamos que houve um atropelamento fatal na região onde você mora e só se sabe que foi um carro prata. Você havia passado no local quase na hora do acidente… e, por causa disto, você recebeu uma intimação da polícia por ser suspeita (o) de ter causado o acidente. A polícia recolheu algumas lascas de tinta que ficaram no chão após o choque e peritos vão analisar se são mesmo do seu carro.

Você contrata uma excelente advogada que vai procurar artigos científicos para entender como é que a análise funciona e encontra o artigo chamado: “Análise de pintura automotiva: até que ponto a ciência avançou nos últimos dez anos?” (Duarte et al, 2020)

Veja um trecho a seguir e repare no nível de detalhe das informações. Principalmente, repare que todas as informações são relevantes para a explicação. Veja que o texto não é complicado, apenas tem os nomes técnicos das análises ou bancos de dados. O texto tem apenas o que é necessário para explicar a análise. É íntegro e conciso.

É tão simples quanto precisa ser.

A análise visa comparar as evidências da cena do crime com um fragmento de tinta do veículo suspeito ou com uma amostra de tinta em um banco de dados de tintas [2]. Atualmente, o protocolo mais utilizado para avaliação e identificação de tintas automotivas nesses casos consiste nas seguintes etapas:

a) observando as características do fragmento, pode-se determinar o número de camadas e se é o fabricante original do equipamento (OEM) ou uma repintura pós-venda;

b) a comparação visual com tabelas de cores/pigmentos dos fabricantes de tintas é então realizada;

c) o espectro infravermelho (IR) de cada camada é coletado;

d) os espectros são comparados aos espectros obtidos de bancos de dados IR de referência, por exemplo, o Paint Data Query (PDQ) da Royal Canadian Mounted Police e o banco de dados European Paint Group (EPG) da European Network of Forensic Science Institutes; e

e) a combinação desses resultados gera uma lista de possíveis veículos que possam ter se envolvido no local para facilitar a investigação policial [4].

Existem guias padrão abrangentes disponíveis que descrevem os exames em detalhes [5]. A espectroscopia de infravermelho com transformada de Fourier (FTIR) está muito bem estabelecida para análise forense de tintas [3, 6 a 39].

(Duarte et al, 2020)

A descrição mostra que a pintura do seu carro será analisada por uma técnica específica (FTIR) e o resultado será comparado com os fragmentos de pintura do veículo causador do acidente. 

Sua advogada lhe tranquiliza: Como seu carro já passou por uma repintura e tem um tipo de tinta bem específico, é praticamente certo que a análise vai comprovar que não foi você. (Ufa, que bom!)

Note que em cada um destes contextos, a comunicação foi a suficiente para que as pessoas compreendessem a questão e pudessem agir corretamente.  Quanto maior o nível de relevância e especificidade, maior o nível da informação, maior o detalhe e precisão da comunicação.

Além disto, uma análise de tinta para uma investigação necessita dar um resultado muito confiável e, para isto, precisa de um conjunto de informações de técnicas e procedimentos de análises químicas. É preciso fornecer as informações essenciais e demonstrar a validade delas através de referências de outros estudos científicos.

Este exemplo de perícia policial demonstra a importância da validade. É muito claro que o resultado de uma perícia precisa ser válido por causa da responsabilidade em apontar uma pessoa como responsável por um crime.

Uma investigação científica deve tratar a validade com a mesma relevância ou, dito de outro modo, este mesmo grau de responsabilidade sempre deve estar presente na ciência. O resultado de um estudo científico precisa ser verdadeiro porque este resultado servirá de base para novos estudos.

Um estudo científico precisa demonstrar seu embasamento da mesma forma que um edifício precisa ter uma fundação que o mantenha de pé. A diferença é que o alicerce do edifício fica oculto. O alicerce do artigo científico, a base científica que lhe deu fundamento, precisa ser evidente, o que é feito pelas referências e suas citações. No exemplo do artigo, as citações feitas no texto estão numeradas entre colchetes.

Da mesma forma que existe um conselho de engenharia e um sistema normativo que regula o alicerce das edificações para que elas não caiam, existe uma série de regras para que a ciência seja feita e para que seja comunicada. Por isto, a linguagem científica tem suas normas, para garantir que todas os pesquisadores escrevam de maneira a expressar que o estudo é válido, reprodutível, inovador, relevante e abrangente, como todo estudo científico deve ser.

A linguagem científica não é complicada, ela apenas precisa ter todos os elementos necessários para esclarecer o assunto com veracidade, integridade, precisão, concisão e clareza.

Quando estivermos escrevendo um texto ou artigo científico, precisamos nos lembrar disto. A linguagem científica pode e deve ser simples, desde que cumpra sua missão de expressar o valor científico de seu trabalho com veracidade, integridade, precisão, concisão e clareza. Como em um bom jogo, a escrita científica deve seguir as regras ao comunicar o estudo, demonstrando que ele é válido, reprodutível, inovador, relevante e abrangente, como todo estudo científico deve ser.

Agradecimentos

Agradeço a Juliano Gomes e autores pela autorização em utilizar um trecho de seu artigo.

Referências

Duarte, Juliana Melo, Nadia Gabrielle Silva Sales, Marcelo Henrique Sousa, Candice Bridge, Mark Maric, and Juliano de Andrade Gomes. 2020. “Automotive Paint Analysis: How Far Has Science Advanced in the Last Ten Years?” TrAC – Trends in Analytical Chemistry 132: 116061. https://doi.org/10.1016/j.trac.2020.116061.

Maric, Mark, Wilhelm Van Bronswijk, Simon W. Lewis, and Kari Pitts. 2014. “Synchrotron FTIR Characterisation of Automotive Primer Surfacer Paint Coatings for Forensic Purposes.” Talanta 118: 156–61. https://doi.org/10.1016/j.talanta.2013.10.016.

Fotos

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  • Antoni Shkraba
  • Cottonbro Studio

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