Escrita em Queda Livre – Escreva rápido, escreva melhor

Falar é fácil, diz o ditado.

E se falar é fácil, escrever deveria ser igualmente fácil, certo?

Certíssimo no tempo verbal: deveria. Só que não costuma ser.

De modo geral, a gente pensa que deve escrever a versão final e acabada do texto de uma só vez, como quem já sabe todas as fórmulas para resolver uma equação e só quer chegar logo no resultado final, sem erros.

E aí, das duas uma: ou o texto sai mesmo de uma só vez, mas fica ruim, ou o texto sai sofridamente, cada frase é escrita, apagada, reescrita e apagada… Um martírio.   

Mas não precisa ser assim. Pode ser bem mais rápido, divertido e interessante.

Recentemente, soube de uma técnica chamada escrita em queda livre (freefall writing). É uma técnica em que você escreve o que está passando em sua mente por um tempo determinado, digamos, 20 minutos, sem parar de escrever. É como um jogo, a única regra é escrever sem parar.  Se você parar de escrever por mais de alguns poucos segundos, perde.

Então, o único jeito é escrever do mesmo jeito que você fala: ir escrevendo conforme vai pensando a respeito do que deseja comunicar.

A vantagem disso é que você visualizará todas as ideias que você deseja apresentar e poderá avalia-las muito mais facilmente do que se elas estivessem burilando na sua cabeça.

Depois do tempo determinado, você já pode analisar os trechos que contém as ideias mais importantes e começar a estrutura-los na direção que deseja.

Esta abordagem é muito válida tanto para a escrita literária quanto para escrita técnica.  A diferença é que, além de despertar a curiosidade do leitor, a escrita técnica vai requerer um cuidado maior com a ordenação e a lógica.

Na escrita técnica e científica, convém ir do simples para o complexo ou do que é conhecido para a novidade, ou do que é consenso para o que é polêmico. O sentido geral é este, do mais fácil para o mais difícil. Pode haver algumas alterações pontuais nisto para gerar curiosidade, mas, no geral, esta é a maneira que favorece o entendimento.

Como exemplo, suponha que você domine bastante o tema de análise química de ouro e precise explicar alguns dos problemas relativos a esta análise para um cliente que necessita aprimorar seus processos, mas ainda não está convencido disto. Seu cliente analisa ouro como se fosse um metal comum.

O procedimento que seu cliente precisará seguir já está pronto, mas você não sabe exatamente como começar a escrever para convencê-lo disto.

Utilizando a técnica de escrita em queda livre, você comenta do mesmo modo que falaria:

Não se pode analisar ouro da mesma maneira que outros metais. O ouro é diferente, é difícil demais ter uma amostra homogênea. E não adianta ter uma preparação de amostras muito boa, sempre pode haver diferenças entre amostras, ainda mais se o teor é baixo. Para o aprimorar o controle de processo efetivamente, é necessário fazer análise em triplicatas e considerar válidos somente os resultados com diferenças inferiores a 30%.

Nem preciso dizer que este trecho não pode sequer ser considerado como um texto dentro de uma perspectiva técnica/científica. Mas é um excelente começo. Contém todos os elementos para começar a escrever tecnicamente. Agora é só traduzir para uma linguagem formal e técnica e acrescentar dados que justifiquem determinadas afirmativas.

Para começar, é importante dizer que não se pode analisar ouro como se analisam outros metais. Ouro é diferente. Então, tecnicamente, pode-se dizer que:

A análise química de ouro em amostras de minérios apresenta alguns desafios específicos.

Bem, dentro da linguagem técnica, é essencial fundamentar afirmativas. (Escrevi outro artigo sobre a linguagem técnica e científica, você pode acessá-lo aqui) E não só pela linguagem, uma boa fundamentação é a base para demonstrar a validade do que se deseja comunicar.

Então, é importante esclarecer por que o ouro é diferente, ou melhor dizendo, explicar quais são os desafios específicos da análise de ouro. E aí você inclui seu conhecimento e acrescenta algumas referências técnicas. Como resultado, o parágrafo se torna:

A análise química de ouro em amostras de minérios apresenta alguns desafios específicos. Por natureza, o ouro não se distribui uniformemente, mesmo em materiais finamente moídos. Assim, dada esta heterogeneidade original, o conteúdo de ouro de uma pequena alíquota retirada para a análise química pode ser diferente do conteúdo do minério que se quer analisar, mesmo que a coleta da alíquota tenha sido correta.

Além disto, como a densidade do ouro é muito alta (19,3 g / cm3), partículas de ouro puro tendem a sedimentar ou segregar no fundo do material sendo manuseado, o que torna ainda mais difícil retirar alíquotas homogêneas. Esses problemas de heterogeneidade são amplificados conforme o teor de ouro se torna mais baixo.

Nas melhores práticas, para superar esses problemas, as análises de ouro são realizadas em triplicatas e a análise é considerada válida sempre que a diferença relativa entre os teores das triplicatas for inferior a um valor especificado, normalmente entre 20-30%.

Este segundo texto já está bem melhor e diz, de maneira fundamentada, o que você precisava comunicar efetivamente.

Na sequência, seu documento pode apresentar alguns dados comparando o efeito de melhoria que uma análise bem feita traria para o processo de seu cliente.

A escrita deste texto pode ser muito mais rápida sendo feita nestas duas etapas do que tentar escrever o texto final diretamente.

Experimente escrever em queda livre.

Agora, por favor, JAMAIS se esqueça de abrir o paraquedas da revisão técnica e científica.  

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Escrevi este artigo originalmente no meu perfil no Linkedin:

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