Achei que fosse chover no domingo à tarde. Não choveu. De minha parte, é apenas achismo. A previsão do tempo costuma acertar infinitamente mais.
Imagino que há quem consiga acertar muito bem, gente da roça, agricultores, indígenas. São poucos, por certo. Adquiriram um senso apurado dos sinais corretos por associação dos fatos. Se o vento está assim, as nuvens, assado, a umidade está de tal jeito, vai chover nas próximas horas. E chove mesmo.
Exemplos mais próximos: minha irmã sabe se a comida está bem temperada só pelo cheiro. Só de ver a espuma de um processo de flotação, meu amigo Alcides sabe dizer o teor de cobre do concentrado. E acertam em cheio.
Isto é um conhecimento tácito, incorporado. Envolve a percepção de vários fatores e sua associação com um evento, um resultado, um dado específico que é de interesse. Esta percepção torna-se natural e quase sempre tem vários aspectos que permanecem num nível sensorial e não são conscientes.

Cada um de nós tem uma série destes conhecimentos. Você sabe quando alguém que você conhece muito bem está alegre ou triste por mudanças de expressão mínimas do rosto desta pessoa. Se você sabe andar de bicicleta, você já incorporou uma noção de equilíbrio típica do movimento. Se você faz e analisa algo com frequência, já adquiriu uma percepção de como as coisas funcionam.
O que acontece é que, muitas vezes, não sabemos explicar exatamente todos os sinais que captamos e interpretamos para chegar àquela percepção ou previsão acertada. Porém, quando descobrimos e conseguimos expressar o que se passa, há um salto de conhecimento, é uma evolução.
Comigo, isto acontece muito quando leio ou ouço palestras sobre determinados temas que já domino bem.
Talvez já tenha acontecido com você também. Você vai naquele evento da sua empresa esperando os mesmos clichês, o mesmo blábláblá. E de repente, a palestrante fala algo que você já sabia, mas a forma como ela fala lhe dá uma nova perspectiva e explicita sinais que você só percebia intuitivamente. Ou então você lê aquele livro em que vê a descrição exata do que você sempre percebe, mas não tinha ainda conseguido expressar.

É muito bom quando isto acontece, por que o conhecimento vai a outro patamar.
Explicitar é esclarecer, é evidenciar, é descrever, é aliar o conhecimento consciente, lógico, funcional e verdadeiro àquilo que se tem incorporado de modo subconsciente.
Em um aspecto tecnológico, a explicitação permite o uso sistemático deste conhecimento. A meteorologia começou com a avaliação de variáveis básicas, com base nos conhecimentos tácitos e em hipóteses formuladas a partir deles. Hoje, a meteorologia moderna envolve um sistema intrincado de medida e análise. Satélites, balões de medida, estações terrestres, supercomputadores e equipes de meteorologistas trabalham para prover uma previsão do tempo com base em inúmeros dados e diversas variáveis. E isto possibilita tanto marcar as férias num período mais favorável como gerar alertas de segurança em caso de desastre climático.
No nível pessoal, a explicitação permite atuar e se comunicar melhor, o que favorece as interações e o trabalho em conjunto. Se você é uma pessoa criativa e, além disto, entende de modo explícito as técnicas de desenvolvimento de criatividade, você é capaz de realizar muito mais atividades de modo atrativo, bem como envolver outras pessoas e proporcionar-lhes momentos de criação coletiva. Isto por que você sabe duplamente como explorar ideias e consolidá-las para obter melhores resultados.
Deste modo, o exercício de transformar conhecimento tácito em explícito é uma forma de estudo extremamente eficaz, tanto no desenvolvimento pessoal como no desenvolvimento tecnológico. Requer um olhar atento, uma análise bem feita e a escolha de uma forma de se expressar que seja adequada a quem vai ouvir/ler.

O olhar atento é para identificar quais os elementos que estão atuando na questão. Qual o papel da temperatura, das nuvens, do vento? A análise bem feita é para definir o efeito destes elementos no contexto e nos resultados, bem como para comprová-los. Como estes elementos interagem e quando causam enchentes, ciclones, secas? A forma de expressar é para descrever estes elementos e seus efeitos o objetivo de que a audiência tenha a compreensão completa do processo ou para que a tecnologia possa utilizar estes elementos. Como os fenômenos podem ser descritos e esclarecidos? Estes fatores podem ser modelados matematicamente e seus efeitos podem ser previstos automaticamente?
Quer estejamos aprendendo a surfar ou lidando com equações diferenciais, realizar este processo de modo consciente ajuda demais a dominar o tema, a compreendê-lo e aplica-lo com maior facilidade. A prática da atividade e a prática de torna-la consciente permitem não só incorporar, mas avaliar, expressar e aplicar. E mesmo que não se tenha a mínima intenção de se tornar professor de surf, muito menos de equações diferenciais, explicar o assunto é uma forma excelente de aprimorar as habilidades, de se aprofundar em um tema e de aplica-lo de modo eficaz.
Vale a pena praticar esta transformação de conhecimentos. De fato, o conhecimento mais aprofundado é o que está nas duas esferas.
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Publiquei este artigo originalmente no meu perfil do LinkedIn: https://www.linkedin.com/pulse/conhecimento-t%25C3%25A1cito-expl%25C3%25ADcito-e-tradu%25C3%25A7%25C3%25A3o-de-um-para-o-nilce
Sensacional !!!! Como professora e pesquisadora vivencio muito o que foi abordado nesta artigo, mas não conseguiria me expressar tão bem. Parabéns!!!
Obrigada, Alessandra! Fico muito contente que tenha sido útil! Abraço!