
Sim! Precisamos tanto que cada um de nós utiliza a sua em seu trabalho.
E aqui cabe uma ligeira distinção entre uma e outra. A linguagem técnica é aquela que é típica de uma determinada área de conhecimento. Seus termos expressam conceitos, fenômenos, processos e características próprios desta área. Isto vale para qualquer campo, seja música, astrofísica, geologia, engenharia ou medicina.
A linguagem técnica de cada área costuma usar um conjunto de termos específicos e exclusivos. Este conjunto de termos é chamado de jargão.
Como exemplo, a frase do parágrafo seguinte é de uma análise de uma música de Debussy.
A duração do acorde de G bemol, entretanto, também dá o efeito da primeira cadência, o plagal subdominante para tônica. [1]
Parece outro idioma…
Para o músico profissional, porém, esta frase permite entender o porquê da duração do acorde de G bemol na música. É uma frase que atinge seu propósito de esclarecer a técnica musical, utilizando o jargão próprio da música.
Do mesmo modo, em sua área, deve haver frases inteiras que podem não ser compreendidas por alguém leigo; sua tia, por exemplo. No entanto, elas são fundamentais para comunicar temas de sua profissão a seus pares.

Bem, se a especificidade do conteúdo técnico está na linguagem técnica, a especificidade da maneira de comunicar está na linguagem científica. Na linguagem científica, a comunicação é feita de forma ainda mais acurada e objetiva, visando transmitir informações e conhecimento com ainda mais clareza e precisão.
A linguagem científica, enquanto forma de comunicação, pode se sobrepor a qualquer linguagem técnica e será necessária sempre que a comunicação requisitar um nível elevado de acurácia. Este é o caso de documentos científicos. Relatórios técnicos, particularmente os que descrevem experimentos, também necessitam de uma linguagem científica.
E para esclarecer este ponto, segue outro exemplo. Veja o trecho a seguir.
Diabetes é uma doença causada pela produção insuficiente ou má absorção de insulina, hormônio que regula a glicose no sangue e garante energia para o organismo. Mundialmente, a diabetes é um dos mais relevantes problemas de saúde, afetando uma proporção significativa da população global. Os gastos globais de saúde para tratamento desta doença são expressivos e tendem a crescer já que as políticas de prevenção não têm sido tão efetivas quanto deveriam. O diabetes é uma das principais causas de morte.
Este trecho está de acordo com a linguagem técnica e contém informação verdadeira. Mas será que é científico?
A primeira frase define diabetes e é válida técnica e cientificamente.
Já as demais frases contêm observações gerais sobre as quais não foram fornecidos detalhes nem foi citada uma fonte. Todos sabemos que sim, o diabetes é um problema mundial. Mas o quanto é relevante mundialmente? Quanto os gastos representam? Qual a relevância como causa de morte? A percepção do impacto pode ser muito diferente para leitores distintos. Numa comunicação científica, afirmativas precisam demonstrar precisão. Assim, o parágrafo, se tomado isoladamente, não pode ser considerado científico.
Agora veja o parágrafo seguinte:
Diabetes é uma doença causada pela produção insuficiente ou má absorção de insulina, hormônio que regula a glicose no sangue e garante energia para o organismo. Globalmente, segundo o Diabetes Atlas da International Diabetes Federation de 2019 [2], a prevalência de diabetes atingiu 463 milhões de pessoas, o que corresponde a 9,3% da população global adulta com idade entre 20 e 79 anos. Em 2019, o diabetes foi responsável por cerca de US $ 760 bilhões em gastos com saúde em 2019. O diabetes está entre as 10 principais causas de morte, com quase metade ocorrendo em pessoas com menos de 60 anos. [2]

Agora, sim, o conjunto de dados está fundamentado, contém dados publicados recentemente por uma instituição global, o IDF, que congrega associações nacionais de diabetes de 168 países, ou seja, é uma instituição confiável para prover dados globais. Este parágrafo fornece uma visão clara e precisa do impacto do diabetes no mundo: é mesmo relevante. Agora você já sabe disto com muito mais propriedade.
Esta é a função da linguagem científica, prover fundamentação, precisão, clareza e percepção adequada da informação que está sendo transmitida, com imparcialidade, ou melhor, com base factual.
Dizer que o problema do diabetes é relevante pode expressar apenas uma opinião. Mas diante dos números e de sua proporção global, a relevância torna-se objetiva, é um fato. Então, propostas de ação para reduzir o impacto do diabetes na população tornam-se igualmente relevantes, seja por motivo de saúde, seja por motivo econômico.
A escrita científica requer este cuidado em verificar, detalhar e quantificar afirmativas gerais de modo a respaldá-las. Isto por que o conhecimento deve estar bem alicerçado, já que, uma vez disponível, este conhecimento servirá de base para novos conhecimentos. E ninguém quer um edifício sem bases sólidas.
Este cuidado em fundamentar o que está sendo descrito corresponde a uma garantia da qualidade do alicerce sobre o qual estamos nos desenvolvendo e construindo nossa contribuição para o conhecimento.

E isto vale tanto para artigos científicos quanto para relatórios técnicos nas mais diversas áreas, desde negócios até ciência dos materiais.
A linguagem científica promove uma comunicação mais sólida e consistente bem como proporciona uma visão bem mais acurada das ações que devem ser tomadas em relação aos fatos descritos, seja num projeto de pesquisa, seja num trabalho industrial, seja numa política pública.
Assim, vale investir um tempo em elaborar seus documentos técnicos com uma escrita científica, buscando fontes confiáveis de dados para respaldar suas informações. Será muito mais fácil não só mudar o ponto de vista de seu orientador, mas convencer aquele seu cliente sobre sua proposta, conseguir a aprovação de seu chefe para seu projeto ou obter o investimento daquele seu novo sócio… concorda?
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Referências
| [1] | L. Ulehla, Contemporary harmony; romanticism through the twelve-tone row, Advance Music, 1994. |
| [2] | International Diabetes Federation, “IDF Diabetes Atlas,” Brussels, Belgium, 2019. |
Fotos : Pexels – https://www.pexels.com/
2 comentários sobre “Precisamos mesmo da linguagem científica?”